Abjeção, insetos e a ironia vêm sendo motivos importantes para eu pensar a produção artística neste momento. É interessante o quanto, neste processo, é repugnante e indesejável algo para alguns e tão pouco para outros; no meu caso o “algo” é um inseto, mas que darei ênfase mais adiante.
Fui procurar o significado da palavra nojo e abjeto no dicionário que utilizava no meu tempo de escola mesmo. A primeira, para Aurélio é uma definição já esperada e simples: nojo considerado repugnância, asco. Porém a segunda me causou estranheza: abjeto, sinônimo de infame e abjeção descrito como vileza. Vileza? Qualidade ou ato de vilão.[1] Mas como poucas vezes o dicionário me ajudou, fui procurar na psicologia o que é abjeção. Segundo Kristeva, abjeção é tudo aquilo que perturba o sistema de regras, idéias e conceitos tidos como verdadeiros.
Não é, portanto, falta de assepsia ou saúde que causa a abjeção, mas sim aquilo que perturba a identidade, o sistema, a ordem. [...] Abjeção [...] é imoral, sinistra, calculista e sombria: o terror que dissimula, o ódio que sorri, a paixão que usa o corpo para troca, ao invés de inflamá-lo, um devedor que te vende, um amigo que te apunhala. (Kristeva, 1982, p. 4.)
Pode esse encaminhamento de pensamento para dar fulgor a certo questionamento encaminhado pelo meu professor Alberto Coelho: o abjeto e a ilusão do nojo (será ilusão? a presença do nojo existe!!); o nojo real e a imagem da barata. A força de uma imagem está onde? Na “potência”!
Contudo, para que fique clara a proposta, antes preciso contar um pouco do meu processo artístico. Venho de uma produção onde a imagem de inseto sempre é representada, seja em fotografias, seja em desenho, pinturas ou coleções. Em uma certa ocasião em uma das disciplinas da graduação foi proposto um projeto de site specific. Escolhi então um dos banheiros do Centro Universitário Feevale. Gostaria com essa instalação brincar com o olhar do espectador, que nesta ocasião seria um usuário da cabine do banheiro; também ironizar a decoração de alguns ambientes e para isso, utilizar uma das imagens de inseto que já vinha colecionando. Porém necessitaria da imagem mais repugnante de todas. Uma imagem que não colocaria em dúvida sua abjeção. Foi então que surgiu a idéia da barata e que vem me acompanhando até então.
Era apenas um projeto que não foi executado na época, porém situações possíveis que já surgiram alguns questionamentos. O sujeito neste momento tinha duas opções: ver a imagem como “representação do real”[2], de um inseto como sendo o tal, enfrentando como uma brincadeira de mau gosto ou ver através de uma simples “imagem numérica”[3], encarado a situação como sendo lúdica. É claro que o sujeito não teria consciência se “a imagem se dá, então, como representação do real”[4] ou se é uma imagem numerizada... “isso pode ser”[5].
Se pensarmos no sentido de virtualização desta imagem, poderíamos comparar com o exemplo dado por Levy quando ele afirma que a árvore encontra-se virtualmente presente na semente.[6] Ou seja, se para ele o virtual não se opõe ao real, mas sim ao real, o que na imagem (barata) em sua potência pode causar? O nojo que é um sentimento real, mas que só existirá se o sujeito compreender a barata como repugnante. A imagem encontrada pode não significar absolutamente nada para o sujeito.
Dando então continuidade a descrição do projeto, crio uma intervenção através de uma imagem de inseto repugnante em um ambiente comum, desta forma estou impondo ao sujeito – que não tem conhecimento de ser um objeto se arte - uma nova situação à paisagem escolhida por mim. Compreendo aqui, a imagem desprezível como forma de impor uma nova paisagem: Agredir visualmente. E quando padronizo imagens abjetas penso o grotesco disfarçado visto como modo de decoração de ambientes e objetos.
Veja só... sair colando imagens abjetas é uma tarefa muito divertida e aventureira. Ou para ser mais específica no momento estou adesivando inúmeras imagens de um animalzinho, que cientificamente é chamado de Periplaneta Americana. Tão bonita por sua natureza física, a barata e tão abominável por seu modo de vida e proliferação de doenças.
Criar situações abjetas no corriqueiro dia-a-dia das pessoas e proliferação de uma mesma imagem vem me instigando para um processo de criação artística. De uma maneira bem descompromissada comecei a colecionar imagens digitais de insetos e figuras repugnantes. Ao reunir estas imagens sempre tive em mente que arte não é apenas situações agradáveis ou belas. Constantemente tenho repulsa por arte ligada à decoração, a beleza ou agradável demais que se torna falso. No entanto, nesta fase de pesquisa artística, a imagem escolhida por mim, como a mais simbólica da abjeção foi a barata. A partir desta escolha, tendo em mãos uma imagem de boa qualidade em nitidez, pixalização, luz e verossimilhança, tratei ainda mais sua qualidade de imagem no Photoshop.
Após conseguir as características de semelhança com o inseto barata, tanto em tamanho como em cores reais realizei uma impressão colorida desta imagem sobre adesivo. Como essa impressão foi obtida sobre papel branco fiz o recorte manual no contorno desta imagem alcançada, tentando não perder detalhes importantes para sua verossimilhança com o animal, como antenas, pernas e minúcias das asas.
De maneira bem espontânea começo agora o processo de contaminação desta imagem. Proponho buscar situações para o desconforto com o sujeito através da Intervenção desta imagem. Por onde passo, com minha família, amigos, colegas, em viagens colo esse adesivo nos locais mais variados. Já colei em banheiros, em carros, em restaurantes e outros.
Os objetos Kitsch são os meus preferidos. Não consigo resistir a uma replica da Santa Ceia, do Leonardo da Vince, aquelas mais ordinárias, por exemplo. É para mim, como um ato de vandalismo e de pichação, porém com mais requinte. Uma ação bem inocente dentro dos meus conceitos irônicos é claro!
Ainda dando ênfase a sensação de nojo e a imagem barata... A força de uma imagem está onde? Na potência!
Muitas vezes, na verdade na maioria das vezes, o sujeito, normalmente mulher, brita muito ao se surpreender com a imagem. Aparentam não acreditar (ou não querem acreditar) que se trata apenas de uma imagem. E muito menos percebem que é uma imagem numérica. Mesmo identificando, muito depois de se tratar de uma representação negam-se sequer tocar no adesivo.
Através desta percepção espontânea do sujeito frente à imagem representando uma barata estou observando que se estabelece uma ambigüidade do ser abjeto. Por um lado a barata é o símbolo de sujeira e repulsa, sendo assim totalmente desprezada pelo espectador, em outras situações ao contrário, se estabelece uma relação de admiração e desejo, por se tratar de uma brincadeira, interpretada pelo sujeito. Quando ela é inserida em ambientes onde já conhecem o meu trabalho a situação é inversa, o que era para causar abjeção, em alguns casos ocorre adoração à imagem.
Isso normalmente acontece porque a imagem não está em uma galeria, onde as pessoas freqüentam sabendo que encontrarão arte. Estas situações acontecem no dia-a-dia das pessoas, provavelmente não saberão que se trata de arte. Aí que a discussão em torno da potência desta imagem fica mais interessante.
A força da imagem da barata pode estar na evocação do nojo. Mas onde o virtual entra nesta historia? Se para Levy a semente é a virtualização da árvore então, o nojo em minha intervenção pode ser a virtualização da situação que evoca o nojo: a imagem numérica que representa o inseto barata. O nojo é real, porém, pode ser virtual se pensarmos nele como potência, está latente e pode ser evocada por uma imagem.
O que está subentendido na imagem de uma barata? O modo como elas vivem? Como podem proliferar doenças?
[...] elas ainda continuam a carregar nas patas coisas perigosas e microscópicas que, em você, podem converter em doenças. Elas podem ser transmissoras, por exemplo, de lepra, difteria, tifo, meningite, pneumonia, tétano e tuberculose, além de muito piriri e vomitões nos humanos. Ás vezes elas não só passeiam sobre, como também comem um cocozinho, por exemplo, de gato ou de cachorro aí da sua casa. E mais: elas gostam de vomitar e fazer cacas ao mesmo tempo. E isso não é de adoecer? (MESQUITA, 2005, p. 45)
Não vou muito longe com um texto grotesco tanto quanto minha obra. A imagem neste caso só evoca o nojo por a imagem representar um modo de vida nada admirável pelas pessoas. Sua potência está na existência ou não do nojo.
“Diz-se que a imagem digital não é indício, obtido em contigüidade com o real, e cópia, submetida ao princípio de analogia, de uma coisa, objeto ou ser do mundo”[7] no caso da imagem da barata, jamais consideraria um registro indicial do real, porém não consigo deixar de comparar a imagem que existe com o que ela representa. É impossível esquecer, que a barata é um ser que prolifera doenças, que se locomove por esgotos e que infelizmente existe.
Neste caso o número ainda está codificando a potencia da imagem. Mesmo sua realidade sendo sua própria realidade, como numérica, ela está inserida dentro de minhas realidades: a existência de um animal, que cientificamente é chamado de Periplaneta Americana, e assim vai.
Ao mesmo tempo em que ela é numérica ela é representativa. Índice do real? Talvez! Talvez não por não se tratar do real, mas sim por trazer referências do real.
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COUCHOT, Edmund. Da representação à simulação: evolução das técnicas e das artes da figuração. In: Imagem máquina: a era das tecnologias do virtual. Org. André Parente. Rio de Janeiro, Editora 34, 1993, p. 37-48.
FERREIRA, Aurélio B. de Holanda. Ninidicionário da Língua Portuguesa. 2. Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.
KRISTEVA, Julia. Approaching Abjection. In: KRISTEVA, Julia. Powers of Horror: an Essay on Abjection. New York: Columbia University Press, 1982. P. 1-17.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed 34, 1999.
LÉVY, Pierre. O que é o virtual? São Paulo: Ed. 34, 1996.
LUZ, Rogério. Novas imagens: efeitos e modelos. In: PARENTE, André. Imagem-máquina: a era das tecnologias do virtual. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993.
MESQUITA, Fátima. Almanaque de Baratas, Minhocas e Bichos Nojentos. São Paulo: Editora Panda, 2005.
REY, Sandra. Cruzamentos entre o real e o (im)possível: transversalidades entre o “isso foi” da fotografia de base química e o “isso pode ser” da imagem numérica. In Porto Arte – Revista de Artes Visuais. Porto Alegre: Instituto de Artes da UFRGS, v. 13, n 22, maio/2005, p 37-48.
[1] FERREIRA, Aurélio B. de Holanda, 1988, p. 355, 3 e 527.
[2]COUCHOT, Edmund, 1993, p. 37-48
[3] Idem.
[4] Idem
[5] REY, Sandra, 2005, p. 41.
[6] LÉVY, Pierre. O que é o virtual? 1996, p. 21
[7] LUZ, Rogério, 1993, p. 52
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